Culpa, dano e responsabilidade

- um ensaio sobre atribuições e dilemas -

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O texto a seguir é uma ilustração de parte importante do estudo sobre culpas, danos, responsabilidades.


 

Conhecia Otávio de jantares no Cambuí. A mesa boa, o vinho, os assuntos. Recentemente, em certo momento, sem preparação visível, ele disse:

— Minha mulher não me valoriza...

Não acrescentei nada. Em geral, depois de uma frase dessas, o melhor é silenciar. Muitos anos de consultório.

Ele prosseguiu:

— Não reconhece nada. Nem minha presença, nem o que faço, nem o esforço. Se dou uma opinião, sou arrogante. Se faço uma observação sobre alguém, penso mal do mundo inteiro. Se insisto em qualquer ponto, “acho que sei tudo”. Você conhece o repertório.

— (silêncio obsequioso)

— Pois é. E o gênero, quando entra em casa, ai, ai. Outro dia eu disse que um sujeito do escritório me parecia duvidoso.

— Hum hum...

— Disse: “Você sempre acha o pior das pessoas”. Com aquele tom.

— Com aquele tom...

— O tom, sim. Ela tem uma opinião formada. Parece que está lendo em voz alta.

Bebeu um gole, pensou, corrigiu-se:

— O mais irritante é que ela não briga mal. Estudou com uma IA como me dizer. Aliciou a IA para os propósitos dela. Sabe? Escreve na IA dizendo que sou arrogante, que tudo ponho a culpa nela etc e como deve agir. A resposta da IA é óbvia, não é?


Dias depois, ouvi a outra parte. Foi em Sousas, depois de um almoço comprido, não terminava, cansativo. Lídia estava encostada numa mureta, olhando o jardim do amigo que a recebera. Disse:

— Meu marido me acha uma fraude (olhos marejados).

— Em que sentido, Lídia? (Tenho conversações antigas com Lídia para ir além do Hum um... e perguntar especificidades.)

— Segundo ele, eu engordei porque desconto tudo na comida. Compro as pessoas com a minha simpatia afetada. E que evito intimidade. Que para os outros sou ótima e dentro de casa mal dá para me reconhecer. Que vivo reclamando. Que sou manipuladora. Que tem de ser tudo do meu jeito. Uma tese inteira.

— Ele não diz desse jeito, né, Lídia? Tem coisas aí para separar.

— Ah, claro que tem. Ele é mais sofisticado. Um homem educado jamais insulta assim na hora. Ele é cruel. Espera uma bobagem qualquer para usar como desculpa para dizer tudo isso. 

— E você responde mal...

— Eu respondo mal. Sem admiração. Estamos naquele caminho de desgaste, coisa feia. Onde está o freio?


 

Otávio tinha quarenta e sete anos, advogado tributário, sócio de um escritório em Campinas. Lídia, quarenta e cinco, diretora de comunicação de uma empresa da área da saúde. Eram bem-sucedidos, viajados, falavam inglês sem sotaque de curso, conheciam Londres, Lisboa, Buenos Aires, Paris.

Iam a shows de Caetano, tinham ido ouvir Milton Hatoum em São Paulo, discutiam traduções, conheciam bons restaurantes, maus governos e alguns vinhos que indicavam para os amigos.

Tinham também um filho, André, quinze anos, que aprendera cedo duas línguas e a ser prudente.

Jantei na casa deles outra vez, já sabendo onde olhar. O apartamento era impecável. Livros por toda parte. Nada excessivo. Nada espontâneo. Numa parede, uma fotografia em preto e branco de um lugar europeu. Na mesa, peixe. Ao fundo, João Gilberto cantava baixo, complementando o ambiente.

Otávio comentou:

— A Júlia foi promovida no escritório. Merecido. Trabalha muito bem.

Lídia colocava a salada à mesa e perguntou:

— É a do blazer bege? (o olhar não combina com a voz)

— ... a do blazer bege?! Acho que é.

— Só queria identificar a personagem.(o olhar não combina com a voz)

— Estávamos distribuindo papéis, Lídia? É isso?

— Você distribui melhor do que eu. (o olhar combina com a voz)

Ele respirou.

— Ela é competente, Lídia.

— E ri de tudo o que você fala. Ajuda bastante. (Lídia não percebe que está atacando)

— Você está vendo malícia onde não há. (Otávio não está se defendendo, agora está atacando e sabe disso)

— Talvez. Mas você vê patologia onde às vezes é mau humor. Só isso.

— Mau humor diário... sempre.

André, o filho, não levantou os olhos do prato. Disse apenas:

— Posso comer na cozinha?

Ninguém respondeu depressa, o que já era uma resposta. Ele levantou-se com o prato.

Lídia falou:

— Seu pai acha isso dramático. (comentário desastroso)

Otávio:

— E sua mãe acha isso normal. (comentário desastroso)

André saiu. Tinha o bom senso de alguns adolescentes que percebem a situação.

Fiquei com eles. Somente é possível por familiaridade com os amigos e por ser invisível em ocasiões que pedem invisibilidade. Mas neste caso, preferi sair devagar, sem me despedir, enquanto eles erguiam os ânimos na cozinha.

Lídia bebeu água.

— Você vive querendo ser admirado. Por que não liga para a sua mãe? Ela vai te validar. Eu sou esposa. (culpa e dano)

Otávio encostou os talheres.

— Eu queria não ser tratado como um equívoco doméstico. Como um erro que você cometeu nas suas escolhas. (não é isso o que ele quer, mas não faz diferença. Dano)

— Que expressão feia. (Danos. A conversa se afasta de elementos de compreensão)

— Você prefere o quê?

— Prefiro que você pare de transformar qualquer contrariedade numa tragédia metafísica. Muito mimimi de homem inseguro. Irrita demais, cansa. Estou pouquinha para isso. (verdades mescladas a dubiedades)

— E eu prefiro que você pare de chamar de contrariedade o que às vezes é puro desprezo. (acerto raro de elementos semânticos e sintáticos, mas não terá consequências maiores porque ambos não estão mais ouvindo.)

— Desprezo? Isso é uma palavra grande.

— Ai, ai... ai.

Ela sorriu sem misericórdia.

— Você gosta dessas palavras grandes. Elas te dão uma estatura moral, uma pausa na realidade.

Ele olhou para ela devagar. Risco de quebra de porcelana cara, rara. Cuidado.

— Viu?

— O quê?

— Isso.

— “Isso” não é substantivo suficiente.

...dois comentadores especializados um no ponto fraco do outro.

Vou repetir: "...dois comentadores especializados um no ponto fraco do outro".


 

Voltei a encontrá-los em São Paulo, num show de Caetano. Estavam bem vestidos, discretamente cansados, civilizados. Encontramo-nos no intervalo.

 Sentados, ouvi um trecho do diálogo entre eles. Caetano ainda não havia voltado ao palco.

Otávio, em voz baixa, respondendo a um comentário:

— Você podia passar uma noite sem me corrigir.

Lídia:

— Eu poderia, se você passasse uma noite sem explicar o mundo. Explica o arranjo, a plateia, o clima, a intenção do artista, a qualidade do acústico. É uma forma de colonização.

— Você transforma tudo em ofensa. Como eu posso falar sem ofender você? Qual o caminho?

— Pergunte. Pergunte! Humildade nisso. Você transforma tudo em aula tributária. (e ele pensou que mesmo fazendo assim, perguntando, o resultado é o mesmo, ela se ofende e acusa)

Houve aplausos. Caetano voltou. Salvou, por uma hora e meia, o casamento de várias pessoas da plateia. Não apenas o deles.

Na volta, já na estrada, brigaram. Soube disso depois, por ambos. O curioso é que os dois lembravam frases diferentes e a mesma ferida.

Isso merece repetição imediatamente: "O curioso é que os dois lembravam frases diferentes e a mesma ferida". Anote isso em algum lugar, por favor. Importante para o estudo do dia 11 de abril, sábado.

Segundo Otávio, a conversa foi assim:

— Você sempre me põe no banco dos réus — ele disse.

Segundo Lídia, ele dissera outra coisa, pior:

— Você é a culpada pela minha infelicidade.

A resposta dela, essa ambos recordavam com exatidão, talvez porque fosse boa demais para se perder:

— Ótimo. Me põe no imposto de renda.

Não resolveu nada. Em nossos dias, um ato de elegância tributária.


 

Depois disso passaram algumas semanas na rotina das pessoas eficientes. Trabalharam. Viajaram a São Paulo. Foram a um lançamento de Hatoum. Sorriram em fotografia. Responderam e-mails. Pagaram contas. Dormiram mal. E continuaram, cada um de sua trincheira, alimentando a hipótese confortável de que o outro era o responsável principal pelo fracasso geral.

Otávio dizia:

— Minha vida anda para trás por causa dela.

Lídia dizia:

— Ele é o homem mais insuportavelmente lúcido da própria imaginação.

Otávio:

— Ela me desautoriza em tudo.

Lídia:

— Ele me analisa como se eu fosse uma tese ruim.

Otávio:

— Nunca sou suficiente.

Lídia:

— Nunca sou perdoada.

O filho, André, ouvia o bastante para formar juízo e pouco o bastante para preservar a infância do que restava dela.

Certa noite, ao jantar, deu-se uma discussão por causa de férias. Coisa banal, como quase tudo parecia cada vez mais e mais banal.

Otávio:

— Podíamos ir ao Chile.

Lídia, em sequência:

— Podíamos ficar em paz.

— Isso não é uma viagem.

— Às vezes é uma viagem.

— Você não gosta de nada.

— Eu gosto de várias coisas. Você quer ir ao Chile por outras razões, não por mim.

— Ninguém falou em terapia.

— Toda viagem sua vem com a esperança obscena de consertar a vida por quatro diárias.

 

André largou o garfo.

— Vocês falam como doutores um no defeito do outro.

Silêncio.

Ele continuou:

— ... parece que  gostam disso.

Lídia:

— André. Filho...

— Não. ...já que estamos todos aqui. O senhor acha que a culpa é dela. A senhora acha que a culpa é dele. Enquanto isso, eu moro aqui. Estou doente por causa dessas coisas. Estou pagando a conta de vocês.

Otávio falou primeiro:

— Isso é exagero. E tudo o que você recebe não é muito maior do que a conta que está pagando?

André levantou-se.

— Claro que é. Mesmo assim sobra muito para eu ficar doente de stress. Tenho vontade de morrer, de gritar para que parem com isso. E exagero é a única coisa que nunca falta nesta casa.

Foi para o quarto. Otávio olhou para a porta fechada. Lídia mexeu no guardanapo com uma calma excessiva; nos momentos errados, uma forma de pânico.


 

Começaram terapia de casal pouco depois.

Na terceira sessão, segundo me contaram, o terapeuta perguntou:

— Quem aqui quer ter razão?

Otávio respondeu:

— Eu quero justiça.

Lídia respondeu:

— Eu quero parar de ser deformada no pensamento dele.

O terapeuta assentiu.

— Entendo. Mas perguntei outra coisa.

Ninguém falou.

Ele insistiu:

— Vocês dois usam a palavra “culpa” para um criminoso único. Talvez fosse mais útil falar de dano. E depois de responsabilidade.

Otávio:

— Qual a diferença?

— Culpa responde à pergunta “quem fez?”. Responsabilidade responde à pergunta “e agora?”.

Lídia, seca:

— Parece frase de caneca. Estamos pagando seiscentos reais a consulta para isso?

— E no entanto — disse o terapeuta — continua sendo verdade.


 

A inflexão decisiva, porém, não veio do consultório. Veio de uma pasta esquecida. Otávio deixou no escritório de casa alguns exames. Lídia viu. Não foi preciso abrir tudo. Bastou ler o nome dele, a assinatura do cardiologista e uma expressão técnica suficientemente desagradável.

À noite, pôs a pasta sobre a mesa da sala.

— Você ia me contar?

Ele demorou alguns segundos.

— Ia.

— Quando?

— Quando eu soubesse melhor.

— Você já sabia o bastante. E escondeu.

Ele sentou-se.

— Não escondi.

— Deixou de dizer. Em casamento, é a mesma coisa. Ainda vivemos algo que se parece com um casamento, ou não?

— Eu não queria alarmar você.

Ela quase sorriu, sem humor.

— Não me proteja com essa regrinha idiota. Eu não sou criança nem acionista do seu escritório. Estou de guarda baixa. Mas não estou nada bem.

Ele passou a mão no rosto. Parecia, enfim, um homem menos armado.

— Está bem. Eu tive medo.

— De quê?

— De virar assunto.

— Meu?

— Aqui de casa. Conversinhas de canto.

Lídia ficou em silêncio. Entendeu. E, entendendo, foi atingida num lugar além do alcance do usual sarcasmo. O medo dele não era da doença em si. Era a fragilidade diante da mulher, diante de quem ele aprendera a se defender sempre ao falar.

Ela sentou-se também.

— Você achou que eu usaria isso contra você?

— Achei que podia usar sem querer. Mas que usaria, sim.

— Sem querer...

— Você tem esse talento.

Foi uma frase dura. Justa, talvez. Frase dura.

Ela respondeu, quase num fio:

— Então chegamos a um ponto admirável. Você prefere lidar com um problema no coração a me pedir cuidado. E, veja bem, logo o coração...

Ele não se defendeu. E essa foi a primeira novidade séria em muito tempo.

Os exames mostraram que o caso exigia tratamento e compostura; situação grave. Nada irreparável, mas suficiente para introduzir um pouco de verdade física numa relação saturada de versões.

Lídia acompanhou-o às consultas.

No estacionamento do hospital, depois de uma manhã longa, ele disse:

— Obrigado.

Ela respondeu:

— ... sou esposa. Sou a sua esposa.

— Então...?

— Ainda estou aqui.

Ele a olhou. Havia ali uma oportunidade de frase bonita, mas felizmente ele resistiu. Homens da idade dele, quando se sentem frágeis, às vezes viram poetas inoportunos em situações assim. Otávio teve a elegância de permanecer só cansado.

Com o tempo, certas práticas cessaram. Ele deixou de comentar o corpo dela, ainda que sob pretexto médico. Ela deixou de ridicularizá-lo em público. Ele parou de transformar cada discordância em prova de deslealdade. Ela parou de usar a inteligência como arma branca. Não ficaram ternos. Ficaram menos nocivos. Em muitos casos, já é avanço de ordem civilizatória.

André notou antes de todos.

Perguntei-lhe um dia no elevador:

— Melhorou por aí, André?

Ele pensou.

— Melhorou.

— Como?

— Eles estão se machucando menos.

Era uma boa formulação. Devia ter sido dita por um moralista francês, mas saiu da boca de um rapaz de quinze anos em Campinas.

Meses depois, jantei de novo com eles. Dessa vez sem ostentações, sem música de fundo, sem demonstrações excessivas de gosto. Coisa simples. Macarrão. Vinho bom, como sempre, mas cotidiano. André no quarto. Conversamos de livros, de política, de Milton Hatoum, de Caetano, de uma viagem antiga a Lisboa, de uma livraria em Paris. Pareciam, pela primeira vez, duas pessoas lembrando do mundo, não apenas do erro uma da outra.

Em certo momento, Lídia disse:

— Acho que durante anos eu fui convertendo qualquer dor em licença para te tratar mal.

Otávio respondeu:

— E eu fui convertendo qualquer crítica em prova de perseguição.

Ela:

— O nome disso deve ser imaturidade.

Ele:

— Eu chamaria de imaturidade nossa.

Ela riu. Ele também. Não era uma reconciliação. Estavam próximos e distantes, seguros nesta meia distância.

Depois ela falou, séria:

— Eu não fui culpada pela sua infelicidade inteira.

— Não.

— Mas causei dano.

— Sim.

— Você também.

— Eu sei. Causei.

Ela respirou. Mais calma, disse:

— A palavra “culpa” é confortável. Estou confortável. E “responsabilidade” é desagradável.

— Porque continua depois da discussão.

Houve uma pausa pacífica.

Então Lídia perguntou:

— E agora? (responsabilidade)

Otávio respondeu:

— Agora eu respondo pelo que digo. E você pelo que faz do que eu digo.

— É pouco romântico. Sobra pouco para admiração, para afeição.

— Também acho. Mas já fomos muito piores com frases que machucam muito. (Woody Allen)

Descobriram algo mais custoso: o sofrimento recebido não absolve a crueldade praticada. Dano não é a abstração; fica no outro. Responsabilidade não é pronunciar “eu assumo” com ar nobre; é mudar um procedimento, conter uma frase, desmontar um hábito de ferir. Mas tudo isso era assim para eles. Não há como universalizar.

O final, aliás, não foi o que se esperava.

Não se separaram.

Também não voltaram ao idílio, que aos quarenta e tantos anos seria um pouco humilhante.

Fizeram uma coisa mais sensata. Passaram a dormir em quartos separados.

Quando me contaram, esperei o resto. Não havia resto.

Otávio explicou:

— A proximidade automática estava nos fazendo mal.

Lídia completou:

— Descobrimos que duas portas fechadas podem ser mais honestas do que uma cama em comum.

— E funciona? — perguntei. Perguntei por eles, por meus amigos, para que ouvissem a resposta.

Ela deu de ombros.

— Funciona melhor do que a encenação anterior. Era farsa.

Ele acrescentou:

— E curiosamente melhorou a conversa. Somos quase amigos.

André, informado da nova geografia doméstica, comentou:

— Então agora a gente se encontra no corredor. Vamos colocar mais luz ali.

Ninguém achou graça na hora. Depois reconheceram o mérito da observação.

Passei a vê-los assim. Casados, mas sem a liturgia da fusão obrigatória. Ainda iam a shows de Caetano, ainda apareciam em lançamentos, ainda viajavam, ainda discutiam política externa e tradução de poesia. Mas perderam a ambição (juvenil?) de vencer o processo um contra o outro. Ganharam, em troca, uma coisa menos vistosa e mais útil: certa responsabilidade artesanal, uma afetividade diluída, calma, quase amizade.

Saí pensando que era uma definição suficientemente boa para muita coisa. E talvez um recurso a se considerar naquele relacionamento.

Tornaram-se decentes de um modo raro. O que, em Campinas ou em qualquer outra parte, já exige mais talento do que parece. E em tudo isso, falo especificamente daquele casal.

Quem foi mesmo que achou que o mundo não mudou?

 

 

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