Entremeio

- o espaço vivo entre seres -

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Anselma não ama Anselmo. Gosta dele. E Anselmo não gosta nem ama Anselma, mas admira. No entanto, no ambiente que os une, existe amor. Na avaliação geral das coisas, os filhos tem a impressão subjetiva, a certeza, de que Anselma e Anselmo se amam. De fato, se entendermos por amor a natureza e a forma da relação deles, é isso. Provavelmente.

Eduardo e Eduarda nunca viveram, propriamente, uma intimidade no casamento. Nunca conseguiram teruma conversa íntima, profunda, confidente. Porém, tudo o que existe no espaço que os une, desde os móveis da casa até as amizades, à empresa que juntos construíram, tudo aponta para a intimidade. Eles, de fato, se encontram quando se afastam de si mesmos e se reencontram numa vernissage, num teatro onde Fernanda Montenegro faz um monólogo, dentro de um avião que cruza o norte do Atlântico.

Cláudia ama Cláudio, que ama Cláudia. E, no espaço, no entremeio, que existe entre eles, são somente conhecidos. Caminham sem as mãos dadas, sem nenhuma gentileza numa cantina italiana; migalhas de afinidade em suas aparições cotidianas com os outros. E se amam

São muitos os que costumam imaginar que a verdade de uma relação mora no interior (o que eu sinto, o que você sente). Na Fenomenologia, parece certo; já no Estruturalismo, pode ser diferente.

Martin Buber entendia que o essencial do encontro não se esgota no que cada um carrega sozinho. Estudamos isso em uma jornada de estudos que realizamos à Universidade Hebraica de Jerusalém, em Israel. Ele, o encontro, acontece no relacional, no entre que transforma dois indivíduos em uma realidade comum. Não se trata de uma fusão. Assemelha-se a uma presença recíproca que criamundo.

Uma das boas notícias é que freqüentemente nem tudo depende exclusivamente de nós e não precisamos ser perfeitos por dentro para produzir algo bom por entre nos. Boa notícia, não é?

Há muito a se dizer sobre entremeios. Existem relações em que ninguém diz eu te amo, e, no entanto, a casa tem um jeito de abrigar, a rotina tem uma espécie de gentileza estrutural, o conflito, a vida, um contorno. Se entendermos o amor como natureza e forma da relação, então amor é também uma espécie de arquitetura.

Sabia que o Entremeio por vezes pode cumprir papel de um personagem? Móveis, amizades, a empresa, um mundinho feito a quatro mãos. Hannah Arendt chamaria atenção para isso, pois o humano aparece no mundo comum, nas coisas e práticas que sustentam a convivência. Há intimidade que não nasce do eu me abro, e sim do nós construímos. Nesse sentido, um casal pode falhar na conversa profunda e, ainda assim, ter uma profundidade de outra ordem, a profundidade de ter tecido um lugar onde a vida acontece com paz, com amor. Se pudéssemos comparar questões desta ordem, às vezes esta última poderia ser mais aconselhável do que o amor conforme se mostra historicamente entre casais. Uma possibilidade.

E o caso no qual eles se encontram quando se afastam de si mesmos e se reencontram numa vernissage, num monólogo, num avião atravessando o Atlântico? A intimidade oblíqua. Eles se reconhecem longe do espelho direto do confessionário. E onde? Na experiência estética, no deslocamento, na suspensão do cotidiano. Isso é esperançoso porque sugere que a relação pode se salvar por vias laterais, como pela arte, pela viagem, pela contemplação, por um terceiro elemento que abre espaço. Lembra do “espaço potencial” de Winnicott? Um território intermediário (entre o eu e o mundo) onde o brincar, a cultura e a criação permitem respirar, às vezes amar, sem uma nudez emocional que não vem.

Já Cláudia e Cláudio é o paradoxo, pois se amam, mas no entremeio são somente conhecidos. Caminham semmãos dadas, sem gentileza, migalhas de afinidade, e, ainda assim, amor. Ora, o amor pode existir e permanecer sem aparecer? Emmanuel Levinas dizia que a alteridade do outro nunca se deixa capturar totalmente. Ouseja, eu posso amar e, ainda assim, permanecer diante de um mistério que não se converte em familiaridade. O Entremeio deles é frio, e o verbo final insiste que se amam.

O Entremeio é o lugar onde as pessoas se tornam diferentes de indivíduos, tornam-se uma relação com hábitos, ritmos, cenas recorrentes, objetos que guardam memória, maneiras de discutir e de fazer as pazes, de suportar e de celebrar. O Entremeio é vivo porque ele muda com microgestos. Uma pergunta bem feita, um silêncio, o não abandonar, uma gentileza, um convite para ver junto algo quenos ultrapassa.

O amor sendo um ecossistema (...), nas mídias sociais, tantas vezes mais parece um fogo de artifício.

Nosso estudo do dia 31 de janeiro, com livros e filme, sobre o Entremeio é isso. Entremeio é o lugar em que o impossível pessoal encontra uma possibilidade relacional. Duas pessoas podem não alcançar certos sentimentos adequados para elas e, ainda assim, entre elas, pode nascer algo que acolhe, educa, sustenta, atravessa oceanos, cria filhos, cria empresas, cria memórias. Um amor que deixou de ser propriedade privada do coração e se tornou um bem público do vínculo.

Um abraço,

Lúcio

 

 

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