Historicidade

- questões e encaminhamentos  -

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 4 de julho, sábado

das 9h30 às 11h30

das 14h30 às 16h30

 

 

Neste estudo, Lúcio Packter trabalhará alguns aspectos menos evidentes, mas importantes, da historicidade com a qual o filósofo clínico trabalha em consultório e em hospitais. No trabalho, Lúcio Packter fará inicialmente uma explicação seguida de exemplos; em seguida, proporá exercícios aos participantes.

Os exercícios serão realizados aproximadamente da seguinte maneira:

  1. Observe, nas pessoas que você atende, os elementos X, Y e W evidenciados na explicação.

  2. Considere como eles interagem com as eventualidades R e S.

  3. Se desejar partilhar com os demais participantes, de modo breve, suas considerações, nos momentos de interação haverá essa possibilidade.

*** neste estudo não serão utilizados trechos de filmes, livros, gráficos, conforme usualmente ocorre.


 

Primeiro tema - equívocos frequentes que muitas pessoas cometem ao recorrer aos seus arquivos existenciais, no âmbito de suas historicidades.

Em Dom Casmurro, Bentinho recorda sua história com Capitu; ele organiza suas lembranças para sustentar uma acusação. Quando alguém consulta seus arquivos existenciais como investigação, provavelmente pergunta: O que aconteceu? Que outras leituras são possíveis? Em que posso estar enganado? O que minha dor acrescenta ou deforma? Ou seja, uma aparente abertura.

Mas Bentinho faz outra coisa. Ele escreve já tomado por uma suspeita: a de que Capitu o traiu com Escobar e de que Ezequiel seria filho de Escobar. A partir daí, ele volta ao passado procurando sinais. O olhar de Capitu, sua inteligência, sua dissimulação infantil, a comoção dela no velório de Escobar, a semelhança de Ezequiel com o amigo morto... tudo passa a funcionar como indício.

O problema é que esses elementos não são provas claras. São cenas ambíguas. Poderiam receber outras interpretações. Mas Bentinho as lê dentro de uma moldura acusatória. Ele não pergunta serenamente ao passado; ele interroga o passado, é um promotor.

Mount Chocorua, New Hampshire (1868)

 

Segundo tema - historicidade trabalha para nós ou somos nós que trabalhamos para ela? Outras alternativas?Pendências intermináveis, questões que não se encerram, sísifos existenciais.

Pensemos em Eneias que perdeu Troia. Sua cidade é destruída, sua antiga vida acaba, seus mortos ficam para trás. Mas ele não transforma essa perda em pura repetição melancólica. Ele não passa a vida tentando reconstruir exatamente a Troia perdida, o que seria talvez, em alguns casos, trabalhar para a historicidade. Ao contrário: ele carrega a memória de Troia, sua origem, responsabilidade e impulso. A historicidade trabalha para ele quando a ruína deixa de ser apenas uma ferida e se torna em uma direção. O passado não é mais apagado; o passado será agora transfigurado em tarefa futura.

Fête Foraine

Terceiro tema - Minha historicidade sou eu?

A historicidade não é apenas o conjunto de fatos que aconteceram a alguém? Ela não se reduz à biografia, ao passado cronológico, às lembranças, aos traumas, às conquistas ou aos registros afetivos acumulados? Em sentido mais profundo, a historicidade é o modo como uma pessoa se compreende, se organiza e se movimenta a partir do que viveu, do que interpretou, do que conservou, do que esqueceu, do que ainda espera e do que ainda teme?

Por isso, dizer “minha historicidade sou eu” pode ser verdadeiro em parte, mas nocivo se tomado como totalidade. Sim, há algo de mim em minha historicidade: minhas escolhas, meus vínculos, minhas dores, meus amores, minhas perdas, minhas permanências. Mas eu não sou apenas a soma desses arquivos. Sou também o modo como os consulto, os reorganizo, os recuso, os reabro, os silencio ou lhes dou novos sentidos.

 

The Metlac Ravine (1893)

 

 


 

Quarto tema - os efeitos fantasmas em historicidade.

Hamlet vive num mundo saturado de suspeita: morte do pai, casamento apressado da mãe, corrupção da corte, instabilidade política, sensação de que as aparências traem. O fantasma apenas dá figura ao que já estava difuso. A formulação que surge é esquisita e grandiosa: o mundo inteiro parece deslocado, a padecer, moralmente fora do eixo. Clinicamente, poderíamos dizer: a historicidade de Hamlet talvez produza uma leitura totalizante da realidade. Tudo pede interpretação. O perigo da paralisia; Hamlet sofre de excesso de leitura, inaugura uma consciência moderna, capaz de desconfiar da superfície.

 

 

Gathering Seaweed on the Banks of the Berbés, Vigo (1892)

Juan Martínez Abades (Spanish, 1862–1920)

 


 

 

Quinto tema - se somos seres que se guiam preponderantemente pelos conteúdos da historicidade, o que isso quer dizer? Dilemas e caminhos.

Provavelmente uma pessoa não se guia pela historicidade sempre do mesmo modo. Em alguns casos, a historicidade é bússola; em outros, labirinto; em outros, um tribunal; em outros, de modo aparentemente paradoxal, será nada. E existem os casos de uma historicidade funcionar como uma anti-historicidade.

Uma inteligência guiada pela própria historicidade tende, antes de tudo, a não decidir apenas pelo que é mais eficiente. Ela decide pelo que preserva coerência com uma trajetória. Para uma pessoa historicizada, o melhor caminho pode ser aquele que faz sentido dentro de sua historicidade, ainda que seja difícil, demorado ou aparentemente irracional.

Atenção ao tempo vivido (presente, passado, futuro), peso das experiências anteriores, busca de continuidade, leitura simbólica dos acontecimentos, fidelidade a vínculos, repetição de padrões, medo de repetir dores, apego a lugares, objetos e rituais; dificuldade de substituição; sentido de missão ou reparação, e, quais outras possíveis características seres que se guiam preponderantemente por historicidade teriam?

Pensemos em Odisseu, na Odisseia. Ele não busca simplesmente abrigo, alimento, repouso ou sobrevivência. Ele busca Ítaca. Ítaca não é só um lugar geográfico: é o ponto de amarração de sua historicidade. Um cálculo frio poderia dizer: fique onde houver conforto. Mas Odisseu é movido por retorno, nome, casa, esposa, filho, memória, pertencimento. A historicidade dá ao mundo uma direção. Sem Ítaca, ele talvez sobrevivesse; com Ítaca, ele existe narrativamente.

 


Dois poemas, dois poetas, para os nossos dias:

 

Pense nos outros
Mahmoud Darwish

Ao preparar seu café da manhã, pense nos outros;
[Não se esqueça de alimentar as pombas]

Ao travar suas guerras, pense nos outros;
[Não se esqueça daqueles que pedem paz]

Ao pagar sua conta de água, pense nos outros;
[Aqueles que buscam sustento nas nuvens, não numa torneira]

Ao voltar para casa — para a sua casa —, pense nos outros;
[Como aqueles que vivem em tendas]

Ao dormir contando planetas, pense nos outros;
[Aqueles que não encontram um lugar para dormir]

Ao se libertar de metáforas elaboradas, pense nos outros;
[Aqueles que perderam o direito de falar]

E, ao pensar nos outros, distantes, pense em si mesmo;
[E diga: Quem dera eu fosse uma vela na escuridão]

 

 

Um pastor árabe procura sua cabra no Monte Sião

Yehuda Amichai

Um pastor árabe procura sua cabra no Monte Sião
E, na colina oposta, procuro meu menininho.
Um pastor árabe e um pai judeu,
Ambos em seu fracasso temporário.
Nossas duas vozes se encontraram lá em cima,
Acima do Tanque do Sultão, no vale entre nós.
Nenhum de nós quer que o menino ou a cabra
Sejam apanhados pelas rodas
Da máquina do “Had Gadya”.

Depois, nós os encontramos entre os arbustos,
E nossas vozes voltaram para dentro de nós,
Rindo e chorando.

Procurar uma cabra ou uma criança sempre foi
O começo de uma nova religião nestas montanhas.

 

 

 

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