A transitividade da alma

- um estudo que prefacia o curso de agosto a dezembro, terças-feiras, 19h -

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Ao cair da tarde na serra gaúcha, final da primavera, o bosque já não era verde nem escuro, era uma acolhedora poesia entre as folhas, a coruja encontrou a cigarra diante de um muro depedras.

A cigarra olhava para ele com as antenas baixas.

— Não consigo passar. O muro é muitoalto - disse a cigarra.

A coruja pousou num galho baixo e examinou o muro. Velho, feito de pedras basálticas, entre hortênsias, araucárias, coberto de musgo, cheio de frestas.

— Alto? — perguntou a coruja. — Para mim ele parece cansado. Mal consegue com o própriopeso.

A cigarra suspirou.

— Você é uma coruja. Eu sou pequenina,uma folhinha perto de uma árvore, diante de você. Imagine diante desta muralha...

A coruja pesquisou com os olhos.

— E o que há do outro lado?

A cigarra hesitou. Então sua voz, quase desapareceu. Parecia mesmo uma folhinha.

— Meu amiguinho grilo está lá. Faz dias que não ouço sua música. Tenho saudade.

Ao dizer isso, seu coração comovido suspirou e alguma coisa mudou. O muro, que antes parecia feitode pedra, ficou menos sólidoque a saudade. Vamos repetir isso: menos sólido que a saudade. A cigarra aproximou-se, tocou uma fresta, depois tocou outra. Cantou uma nota fina. A coruja empurrou com o peito uma pedra solta. A cigarra puxou uma raiz seca. O amor, a alma sopravam macio sobre o adobe, o talude de terra, as pedras não talhadas de Jericó. O muro suavemente cedia.

— Viu?  Às vezes tem lá o amor suas mãos — disse a coruja.

A cigarra atravessou a abertura e sorriu, encantada. A matéria tocada pela alma amaciava.

A cigarra pensou um pouco e perguntou:

— Então a alma é transitiva?

— Talvez. Ela passa para as coisas e as coisas passam para ela. Um muro pode ser só pedra. Mas, quando atravessado pelo amor...  Quando atravessado pelo medo, era aquela coisatoda lá. . Quando atravessado pela matemática, talvez vire apenas um cálculo, uma medida. Acho que pode ser assim; explicou com incerteza a coruja.

A cigarra sorriu.


 

Chamo aqui de “transitividade da alma” essa peculiar circulação pela qual o íntimo se torna mundo e o mundo se torna íntimo. Nem sempre é assim e não é para todos. A parede não desapareceu porque alguém a imaginou menor. A parede continua parede. A pedra continua pedra. Mas a realidade humana é física e tantas outras manifestações também. Ela é também afetiva, interpretada, investida por forças de desejo, memória, medo e amor e assim por diante.

Em Spinoza, sobretudo na Ética, a alma não é uma soberana isolada dentro do corpo; ela é ideia do corpo, expressão de umamesma realidade vista sob outroatributo. Os afetos aumentam ou diminuem nossa potência de agir. Por isso, um pensamento amoroso pode tornar possível aquilo que antes parecia intransponível; uma possibilidade. Ele não nega a matéria, eleeventualmente reorganiza nossa relação com ela. O amor, enquanto aumento de potência, pode talvez fazer ocorpo encontrar caminhos, instrumentos, alianças. Já o medo e a tristeza podem reduzir essa potência, fazendo uma barreira pequena tornar-se enorme, ainda que medo e tristeza tenha às vezes funções epistemológicas importantes.

Proust, em Em busca do tempo perdido, ilumina outro aspecto.Amemória pode assumir-se uma matéria viva, capaz de devolver ao presente uma intensidade antiga. Um sabor, uma paisagem, uma música, uma forma qualquer podem abrir dentro de nós um tempo inteiro. Assim, a cigarra não teme apenas o muro de gravetos; ela reencontra,diante dele, uma dor que ainda não terminou de acontecer. O passado passa para o presente. Você entende? A alma, então, não é uma névoa separada do mundo, é uma câmara de ressonâncias de pedra, canto, lembrança e desejo, de ser.

Por isso há pensamentos que têm corpo. E neste sentido,há ideias que levantam casas, atravessam oceanos, derrubam paredes. Há outras que paralisam a mão antes mesmo que ela toque a maçaneta. E há pensamentos quase puros, como uma equação biquadrada (Matemática Simbólica), que parecem suspensos em seu próprio céu abstrato, sem ferir nem salvar ninguém até que, em algum ponto, também eles encontrem uma ponte com a vida.

A transitividade da alma é isto. Nada em nós fica inteiramente dentro, nada fora de nós permanece inteiramente fora. Entre a parede e o pensamento, entre o medo e o gesto, entre a lembrança e o mundo, há uma passagem secreta. E talvez a amizade seja uma das formas mais belas dessa passagem: quando uma alma empresta à outra, carinhosamente, um pouco de sua potência.

Este estudo é um prefácio ao curso de agosto a dezembro de 2026, terças-feiras, 19h, presencial e pelo Zoom.

 

 

 

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